A história política de Londrina poderá ser dividida antes e depois dos dias 3 de 4 e junho deste ano. Em longos depoimentos (mais de seis horas cada um) dados pelo ex-vereador Orlando Bonilha a um time de promotores públicos durante dois dias, muita lama veio à tona. Algumas denúncias referem-se àquelas verdades que são quase de "domínio público", mas ninguém prova (doações suspeitíssimas de áreas públicas, por exemplo). Outras, são novas bombas que caem no colo dos homens da lei com nome, endereço e CPF (ou CGC), O que acontecerá nos próximos meses nessa "cidade apaixonante" - recomendada só para quem suporta emoções fortes - ninguém pode saber. O que dá para deduzir, no entanto, é que o Ministério Público precisará de reforço de pessoal para investigar tantos desdobramentos do escândalo do Legislativo e do Poder Público de modo geral (não se engane, a lógica leva a crer que a crise não está em um só prédio do Centro Cívico).
O conteúdo dos depoimentos do ex-vereador - agora colaborador da Justiça - foi sendo oferecido à imprensa em cápsulas na terça e quarta-feira. Nesta sexta-feira (6), cópias dos interrogatórios foram distribuídas aos jornalistas. Está tudo lá.
Cala-boca
Foi quando se soube, por exemplo, que Bonilha denunciou quatro ex-colegas de Casa por terem oferecido dinheiro a ele (R$ 20 mil) e o arquivamento da Comissão Processante na Câmara para que não revelasse à Promotoria os "podres" do Legislativo. A "pressão", como ele definiu ao MP, foi feita por Sidney de Souza (PTB), Gláudio Renato de Lima (PT), Flávio Vedoato (PSC) e Renato Araújo (PP). Estes são também os vereadores apontados por Bonilha como "cabeças" do esquema de corrupção.
Vedoato e Araújo teriam oferecido ainda R$ 15 mil pela renúncia de Bonilha, segundo o ex-vereador. Sidney era o mais agressivo e o Gláudio ameaçava abrir um processo e tirar o resto de seu patrimônio se contasse a verdade dos fatos, declarou ao MP.
Lista podre
Entre os projetos de lei que passaram nos últimos meses pela Câmara de Londrina e que envolveram corrupção - vale lembrar, e que tiveram a sanção do prefeito Nedson Micheleti (PT) - Bonilha voltou a citar o favorecimento ao empresário Marcelo Caldarelli, que já confirmou ao MP ter pago propina para conseguir a doação de um terreno em área nobre da cidade. Nove vereadores receberam um "faz-me-rir" para colocar a assinatura do projeto. Não é novidade, mas agora ganha status de comprovação.
Bonilha confessou ter embolsado R$ 6 mil (era o "autor" da falcatrua) e apontou os outros corrompidos, segundo ele: Sidney de Souza, Flávio Vedoato, Jamil Janene, Luiz Carlos Tamarozzi, Gláudio de Lima, Henrique Barros, Osvaldo Bergamin e Renato Araújo que, na condição de "coadjuvantes", levaram R$ 3 mil.
Partilha no churrasco
Outro escândalo confirmado por Bonilha é o famoso caso da boate Shirogohan, cujo proprietário pagou pela mudança do zoneamento onde o estabelecimento está instalado. Neste caso, o "protagonista" teria sido o atual presidente da Câmara, Sidney de Souza, que repassou a comissão dos colegas - "discretamente", disse Bonilha - em um animado churrasco patrocinado pelo empresário favorecido.
Além de Bonilha e Sidney, teriam levado propina os vereadores Gláudio de Lima, Luis Carlos Tamarozzi, Pastor Renato Lemes, Renato Araújo, Flávio Vedoato, Oswaldo Bergamin e Henrique Barros.
Detalhe: o prefeito Nedson Micheleti, embora não seja citado por Bonilha, confirmou que participou dessa churrascada.
Mesada antiga
O "mensalinho" pago pela empresa de transporte urbano TCGL também está lá, no dossiê Bonilha. Ele disse que o grupo empresarial "presenteava" mensalmente um grupo de doze vereadores com R$ 1,6 mil. O dinheiro era entregue pessoalmente pelo diretor do grupo, Gildalmo de Mendonça, que nega a acusação.
A mesada era antiga, segundo Bonilha. Já teve como "coordenador" Célio Guergoleto (ex-presidente da Casa), Renato Araújo e Sidney de Souza, segundo denunciou. Bonilha confessou que já fez esse "meio-de-campo". Atualmente, o ex-vereador disse que recebiam o reforço de caixa os seguintes vereadores: Gláudio, Tamarozzi, Marcelo Belinati, Sandra Graça, Sidney, Vedoato, Osvaldo, Renato Araújo, Jamil e Bonilha.
Khouri
Um empreendimento recém-anunciado em Londrina pelo grupo Khouri, empreendedor do Catuaí Shopping Center, também está lá, no dossiê. Trata-se do "Shopping Norte", que precisou da alteração da lei de zoneamento. Sem problemas. Segundo Bonilha, o empresário Alfredo Khouri pagou R$ 120 mil (em duas parcelas) a oito vereadores para ter sinal verde a seu novo empreendimento. Na lista da propina, estavam - disse Bonilha - além dele mesmo, os vereadores Gláudio, Vedoato, Sidney, Henrique, Tamarozzi, Bergamin e Renato Araújo. Gláudio de Lima e Renato Araújo teriam sido os responsáveis pela negociação com o empresário.
Tem mais, muito mais. O modus operandi era sempre o mesmo. Um ou dois vereadores negociavam a "caixinha", convocavam os colegas para a bandalheira e os projetos de lei caminhavam céleres pelo Legislativo. Caso da Get, empresa beneficiada com um terreno em troca do pagamento de R$ 80 mil aos legisladores. Autoria, segundo Bonilha: Vedoato e Sidney de Souza. Nesse caso, Bonilha se ressente: os dois teriam ficado com todo o dinheiro.
Estância Bom Tempo, outro capítulo: Bergamin e Renato Araújo, além de Bonilha, Gláudio, Tamarozzi, Bergamin, Sidney, Sandra Graça e Marcelo Belinati, teriam levado de R$ 3 mil e R$ 5 mil para aprovar o projeto.
O empreendimento Recanto dos Saltos, idem: o empresário Paulo Kishima, representando os condôminos, teria remunerado Bonilha, Sidney, Tamarozzi, Araújo, Bergamin, Vedoato, Gláudio, Sandra e Marcelo Belinati.
Como a Get, a empresa Gastech também teria pago pelos favores da Câmara. Com Vedoato e Henrique Barros à frente, a empresa obteve a doação do terreno onde se instalou e os "pais da idéia" embolsaram entre R$ 3 mil a R$ 8 mil. Ajudaram na aprovação Renato Araújo, Sidney de Souza, Bergamin e Bonilha.
Mordeção interna
A recente denúncia de que os vereadores "compram" a presidência da Câmara também foi formalmente expressa no depoimento de Bonilha. Ele confessa que comprou votos para sua eleição ao comando da Casa: Roberto Fu teria recebido R$ 5,5 mil (pagamento feito via oficina mecânica, que consertou um caminhão do pedetista), Bergamin levou R$ 20 mil, Tamarozzi, R$ 8 mil, Henrique Barros, R$ 10 mil. Para Sidney de Souza e Flávio Vedoato, a "caixinha" foi maior: R$ 50 mil para cada. Na eleição do atual presidente, Sidney de Souza, em 2007, Bonilha e Vedoato teriam recebido R$ 70 mil cada.
O setor de motéis da cidade também teria "molhado a mão" da turma. Sidney de Souza é que teria articulado a propina: foram pagos quase R$ 100 mil para aprovação de uma lei que impedia instalação de novos motéis, evitando uma concorrência muito acirrada no setor. Na lista de beneficários, constam Sidney, Bonilha, Vedoato, Tamarozzi, Renato Araújo, Bergamin e Henrique Barros.
Além dessas denúncias, Bonilha citou irregularidades na Vega Sopave, mudança de zoneamento a pedido de postos de combustíveis e nomes de alguns empresários "contumazes" em negociar projetos na Casa. Haja promotor!